A urgência de pensar educação e novas mídias: entrevista com Katherine Leal

Katherine Athaydes Leal é estudante de Comunicação Social – habilitação em Publicidade e Propaganda na ECA/USP e membra do Cibernética Pedagógica –  Laboratório de Linguagens Digitais. Atualmente, desenvolve uma pesquisa sobre educação e uso das tecnologias digitais em sala de aula. Nessa conversa, ela conta sobre os principais resultados do seu projeto, além dos desafios que surgiram na pesquisa desde o início da pandemia do coronavírus.

1. Katherine, seu projeto de 2019 aborda o comportamento comunicativo dos jovens diante das novas mídias digitais. Quais foram os principais resultados desta pesquisa?

A princípio, eu sinto que eu tive uma descoberta em mim. Na verdade, eu queria estudar as mídias digitais e me deparei com uma quantidade gigantesca de gente falando sobre isso, e dentro do meu próprio grupo de pesquisa eu já encontrei muita coisa. Eu acho que o primeiro resultado que eu tive, algo que guiou todo o meu projeto, foi a visão sobre o assunto. O primeiro conceito que chegou pra mim foi a questão da hibridização dos espaços, que foi extremamente importante até para guiar a minha pesquisa de campo. A gente costuma separar bastante o que é ciberespaço – até falamos “mundo real”, só que quando a gente fala mundo real, acabamos tirando o que é ciberespaço do mundo real. Muitas vezes separávamos os dois espaços por questões mais metodológicas de estudo, mas cada vez mais observamos que é impossível, não se pode fazer isso. Eles são híbridos, o ciberespaço está inserido dentro do nosso espaço, em diversos espaços e momentos do nosso cotidiano. Então, esse foi um dos primeiros resultados que eu entendi e guiou toda a pesquisa.

(…) não se pode falar em mídias digitais e educação usando as tecnologias digitais sem orientar todo o seu pensamento para isso, e buscar formas de trazer a educação associada à tecnologia ao pensamento de promoção da igualdade. 

Depois disso, eu estava estudando adolescência. Algo que é muito comum dos pais é uma certa demonização do uso do celular. Em geral é visto como algo muito ruim, e quando você fala com adolescentes, eles próprios têm um discurso parecido com o dos pais. Eles usam e gostam, mas ainda sentem que eles não estão produzindo nenhum conhecimento, que é mais um passatempo, como se fosse um lazer que não está agregando nada para eles. Então, sempre existe esse pensamento. Olhando para o que é a adolescência, a gente percebe que esse uso do celular é como se fosse um escape. Ele chama a atenção, é quase um amigo. Mas, se não fosse ele [celular], seria outra coisa, assim como nós temos os videogames, tínhamos as revistas e as diversas formas do adolescente escapar daquilo que ele estava vivendo naquele momento. A gente entendeu que a compreensão daquilo tinha que vir mais no sentido do porquê aquele adolescente só quer ficar no celular quando ele está em uma roda de família, e não o que o celular está fazendo com ele ou coisas do tipo. Entendemos que precisávamos ter uma percepção do ponto de vista dele. Essa foi a segunda grande ideia do projeto. Um resultado que chegamos foi que o celular e os meios digitais estão na realidade dele [adolescente] e não são monstros que estão destruindo as famílias. 

Isso até guiou um pouco a pesquisa. Quando eu fui fazer, a princípio, eu queria fazer com psicólogos, professores, com pessoas adultas que falassem por eles. Mas, o longo da pesquisa eu percebi que não, eu precisava ouvir eles. Pelo menos no meu segmento da minha pesquisa, na orientação que eu queria para o meu projeto, eu senti que precisava ouvi-los e entender. E até no começo da minha pesquisa, eu não abordava nada de questões como inclusão digital, não fazia qualquer tipo de recorte de classe, eu não queria abordar aquilo. Eu via que os projetos do meu grupo de pesquisa (Cibernética Pedagógica) já tinham muita coisa, mas ao longo do projeto eu fui vendo que não tinha como, não tem como fazer um projeto de pesquisa e não fazer algum tipo de recorte, não tem como não abordar as desigualdades e a alfabetização digital. 

Um resultado que chegamos foi o de que não se pode falar em mídias digitais e educação usando as tecnologias digitais sem orientar todo o seu pensamento para isso, e buscar formas de trazer a educação associada à tecnologia ao pensamento de promoção da igualdade. 

2. As suas entrevistas e suas conversas foram todas online, certo? Houve alguma mudança nesse sentido?  

Acho que eu senti uma diferença no comportamento dos alunos e adolescentes. Eu queria entender os sentimentos que eles estavam tendo, o que eles sentiam, e percebi que a pandemia afeta diretamente tudo isso, essa sensação que temos de incerteza e medo. Eu tinha que pensar aquilo, não podia simplesmente chegar e falar “Olha, os adolescentes estão tristes”, sendo que a situação que a gente vive é caótica. Eu percebi um clima estranho: os alunos desmotivados, tanto os de colégio público quanto de particulares. 

Eu senti como os adolescentes, no meio dessa pandemia, tiveram uma consciência muito grande de como estava sendo aquilo e como a educação e as aulas estavam afetando eles, principalmente os alunos de colégio público. É muito clara a diferença de percepção entre alunos de colégio público e particular. Os alunos de colégio público têm uma percepção muito maior da realidade deles, das diferenças e sobre o que está acontecendo. Eles conseguiram interpretar melhor a situação que eles estavam passando. 

3. Uma das principais discussões da pesquisa é a hibridização entre os espaços digitais e físicos, que ao seu ver devem ser analisadas de modo articulado, e não dissociado. Diante da pandemia e do isolamento social, o que podemos acrescentar a essa discussão?  

Acho que muda tudo na nossa interpretação. Quando você está no meio de uma pandemia, essa ideia de que os espaços são híbridos foi muito mais perceptível. Se antes a gente tinha essa ideia e entendíamos que esses espaços tinham que ser estudados de maneira conjunta, agora de fato não tem como separar. Aquele espaço [digital] entrou muito mais na vida delas, aquele espaço modificou inclusive as formas como a gente pensa as nossas coisas, a nossa vida. Criamos relações diferentes com objetos, redes sociais (muita gente entrou para o TikTok!), muita gente começou a se abrir mais. Acho que tudo o que estávamos estudando cresceu. Aquilo que tínhamos como ideia e hipótese estava forte nesse período de pandemia.  

4. Atualmente, tem-se discutido muito como a pandemia deixa cada vez mais evidente (ou até mesmo atualiza) as desigualdades no Brasil. Se tomarmos como questão as dificuldades de acesso à internet de muitos jovens, e com base nos resultados da sua pesquisa, como você percebe a implementação de alternativas, recursos e novas tecnologias em sala de aula e remotamente? 

É uma coisa complicadíssima. Acho que é a chave de todo o problema, e se descobrirmos como fazemos isso, a gente resolve muita coisa. Algo que eu tirei muito do projeto foi uma orientação: agora, no período de quarentena, o que vemos não é uma educação associada às tecnologias digitais. É a tecnologia digital servindo para tudo, é a plataforma de tudo, onde tudo se resolve e as aulas dos professores se tornaram quase que substituíveis. 

A tecnologia digital nunca deve servir como uma forma de substituir a sala de aula. O papel do professor é essencial, e em períodos de aumento do uso de tecnologias digitais na educação, precisamos entender o papel do professor e varolizá-lo cada vez mais para que ele não seja substituído por um vídeo no YouTube. Então, uma primeira orientação seria nesse sentido: não ter, por exemplo, a metade das minhas aulas de matemática como vídeo, e a metade das [outras] aulas o professor que dá. Assim, só vamos estar contribuindo para acirrar essa desigualdade social que a gente tem. 

Então, a tecnologia deve surgir para poder corrigir algumas coisas que o professor não consegue lidar: o professor está na sala de aula e está ensinando para 30 ou 40 alunos, e cada pessoa aprende de um jeito, é muito de cada pessoa. A tecnologia viria para otimizar todo esse processo. O professor ensinaria o conteúdo e daria alguma atividade para os alunos fazerem pela internet, por algum programa. A partir daí, o professor tem um feedback, consegue entender a dificuldade de cada aluno e o próprio programa consegue trazer atividades e exercícios que complementam aquilo que ele está precisando. Isso não é uma ideia, mas algo que já existe e é implementado.

(…) agora, no período de quarentena, o que vemos não é uma educação associada às tecnologias digitais. É a tecnologia digital servindo para tudo, é a plataforma de tudo, onde tudo se resolve e as aulas dos professores se tornaram quase que substituíveis. 

5. De agora em diante, quais são os próximos passos da sua pesquisa? Quais os novos objetos e temas?

Pensamos em focar na educação. Eu sinto que é um assunto muito mais urgente. A escola está presente na vida dos adolescentes, e a gente fala não só das relações dos professores e do aluno na escola, mas as próprias relações de amizade. Então queremos orientar muito no sentido da educação e pensando no ponto de vista de um adolescente. Percebemos que muitas vezes falta um “pedaço” quando vamos estudar educação. 

Eu não sou pedagoga e não tenho nenhuma formação relacionada à Educação propriamente dita, mas entendo meu papel como futura comunicadora: entender como aquele processo se dá e como o aluno se comunica e entende o que é trazido para ele. Acredito que os próximos passos do projeto são esses: continuar a entender a educação com todos os recortes necessários de serem feitos e trazer sempre o ponto de vista do adolescente. 

Fale com a Katherine

Currículo Lattes

E-mail: kate.leal@usp.br

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