Iniciação científica para além da formação: entrevista com Eliza Bachega Casadei

Eliza Bachega Casadei é professora titular da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) de São Paulo e vice-coordenadora do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Práticas do Consumo na mesma instituição. Na estreia do Comuniciações, ela conversa com a gente sobre a necessidade de pensar a iniciação científica como algo além da formação acadêmica; suas primeiras experiências no universo da pesquisa; as políticas editoriais e científicas; e a importância de políticas científicas para graduandos. 

1. Eliza, primeiramente, gostaríamos que falasse um pouco sobre a sua trajetória acadêmica, desde a escolha do curso em Jornalismo até agora. Como foi de lá pra cá? 

Quando a gente escolhe uma profissão, somos muito jovens, então acho que temos certos romantismos acerca das carreiras. Minha escolha foi movida porque imaginava que pelo jornalismo eu conseguiria entender melhor os fenômenos do mundo e, ao mesmo tempo, poderia ter uma ação social. Mas teve um momento da faculdade que eu percebi que as coisas não funcionam bem assim. Mas a gente saí de um romantismo para entrar em outro: a minha escolha em virar professora e pesquisadora também tem a ver um pouco com isso, em tentar entender o mundo e ter uma ação nele.

Logo no início do meu segundo ano na ECA, eu descobri um edital para trabalhar no Arquivo Miroel Silveira. Naquele momento, eu nem tinha muito ideia do que era fazer iniciação científica. Mas como eu tinha lido algo a respeito e ainda não tinha muita certeza se eu queria ser jornalista, eu falei: “Ah, vou tentar e ver se tenho outro rumo para minha carreira”. E quando eu comecei a fazer iniciação científica, eu me apaixonei, foi um momento de virada. Ali, eu me vi fazendo coisas que gostaria de fazer no jornalismo e naquele momento eu achei que talvez eu não conseguisse.

Esse projeto era um edital para um projeto específico. O Arquivo Miroel Silveira tinha acabado de ser inaugurado na ECA. Ele reunia peças de teatro que sofreram processos de censura desde a década de 1910 até 1960. Tinha de tudo, desde peças integralmente censuradas até aquelas que tiveram somente palavras cortadas. Uma das linhas de pesquisa deste projeto, coordenado pela professora Mayra Rodrigues Gomes na época, investigava os motivos pelos quais aqueles trechos tinham sido censurados. Ás vezes eram coisas muito óbvias, como críticas políticas, palavrões ou coisas de cunho sexual. Mas tinham coisas que não eram tão claras. E foi um campo muito fascinante, porque eram peças que abrangiam muitos períodos políticos do país. Eu amei trabalhar naquele projeto, foi muito legal. A equipe era formada pela professora Mayra e mais três bolsistas de iniciação científica. Foi ali que eu aprendi como eram alicerçados os procedimentos de pesquisa, como um pesquisador poderia se colocar no mundo. A professora Mayra foi uma excelente orientadora nessas questões, porque ela tem uma visão sobre ciência e o posicionamento do cientista que para mim foi muito inspiradora.

Então, quando eu entrei nesse projeto, eu decidi o que eu queria fazer na minha vida: trabalhar com pesquisas. A partir disso, eu direcionei toda a minha carreira para essa área. Eu terminei a graduação, entrei direito no mestrado, depois entrei direto no doutorado. E quando estava no doutorado, eu comecei a dar aulas e adorei. Aquele romantismo que eu tinha lá no início da minha carreira eu consegui achar, não exatamente como esperava, mas um pouco dele no campo da pesquisa.

2. Esse o único projeto que você tocou e depois direto para o mestrado?

Eu fiquei dois anos no Projeto Miroel Silveira e no TCC eu fiz uma outra pesquisa, que surgiu das inquietações que eu encontrei no arquivo Miroel Silveira. Nesse trabalho, eu fiz uma pesquisa sobre como a imagem do Getúlio Vargas era ressuscitada na imprensa, sendo que nesse momento eu quis sair um pouco dessa área do teatro e me conectar mais com minha área de estudos de jornalismo. No Miroel Silveira, uma das coisas que eu mais achei curiosas era o modo como a figura do Getúlio Vargas era moldada nas peças. Ele adorava participar, então várias peças tinham o personagem de Getúlio Vargas. Ao mesmo tempo, tinha várias outras em que a figura dele era censurada. Então achei muito curioso esse jogo com a figura dele e no TCC eu quis estudar como acontecia a lembrança do Vargas nos jornais até hoje e quais eram as características discursivas acionadas quando os jornais relembravam Vargas.

Uma pesquisa foi derivando da outra. Os temas são muito diferentes, mas sempre é uma curiosidade que surgiu na pesquisa anterior e que eu puxava para a pesquisa seguinte. No mestrado, eu fiquei muito curiosa com esse tema da rememoração, então eu estudei como os jornais acionavam os fatos históricos para falar sobre as notícias de hoje. Eu aprofundei o que estava vendo antes. Depois, no doutorado, eu quis estudar essa estrutura da narrativa jornalística e como ela muda ao longo do tempo. Eu peguei desde as revistas de 1900 até dos anos 2000 e fui vendo como a narrativa jornalística foi sendo moldada no período. A minha curiosidade foi para isso: como essas histórias são contadas e de que forma isso atende a certos pressupostos profissionais. Cada pesquisa que você faz acende uma chama de curiosidade para um outro elemento. Parece que você está estudando algo muito diferente, mas não, é uma centelha de uma coisa que você viu lá trás. Isso eu acho muito fascinante no campo da pesquisa.

3. Às vezes a gente tem uma certa dúvida do que pesquisar. Como foi esse processo? Se você pudesse falar do ponto de partida, qual foi ele? Qual pergunta você tinha naquela época, além das inquietações e desilusões com o curso? 

Eu acho que na pesquisa você tem que ter um tema que te toque de alguma forma, que você tenha uma curiosidade para resolver a respeito daquele tema. Porque a pesquisa é um processo um pouco desgastante. Você vai ficar muito tempo lendo coisas sobre um mesmo assunto. Em uma iniciação científica, você fica pelo menos um ano em cima daquele tema; no mestrado, dois anos e meio; e no doutorado são quatro anos estudando um mesmo tema. Então, ele tem que vir de uma inquietação interna, senão você não consegue ficar o tempo inteiro debruçado no tema.

Fazendo psicologia de boteco (risos), o tema de pesquisa das pessoas tem a ver com alguma parte da formação identitária delas, senão ninguém aguenta fazer a pesquisa. Então acho que autoconhecimento ajuda a delimitar temas de pesquisa relevantes para cada um.

4. Você é editora da Revista Anagrama há mais de 10 anos. A gente percebe que de alguma forma – e não somente no campo da Comunicação, mas com as outras Ciências, especialmente as Humanas – o espaço para pessoas da graduação, que estão em processos de descobertas, ainda é muito pequeno. Qual é a sua leitura da situação diante da sua atuação na revista? 

A Revista Anagrama surgiu de uma inquietação que era justamente essa que você colocou. Existiam pouquíssimos espaços para publicar artigos para alunos de graduação. Eu participava de um grupo de pesquisa, o Midiato, que existe até hoje no CJE [Departamento de Jornalismo e Editoração]. Tanto a professora Mayra quanto a professora Rosana de Lima Soares (que coordenam o grupo) tinham essa preocupação. Nós pensamos que, já que existem poucos espaços, vamos tentar formar um espaço para isso. Tínhamos uma equipe bem pequena (e até hoje é pequena porque não temos verba nem incentivo para isso), mas foi a ideia de dar um espaço para que esses trabalhos pudessem ser publicados. Existem algumas publicações: o Intercom tem uma revista de iniciação científica, têm os congressos juniores. Mas ainda são poucos. Muito dessa situação vem das próprias políticas da área da Comunicação. As revistas que publicam mais doutores são mais bem avaliadas e isso é muito problemático.

Talvez uma grande questão seja rediscutir os critérios da área para valorizar trabalhos científicos feitos na graduação. Acredito que deveriam existir outras métricas de avaliação que valorizassem esse tipo de trabalho. Assim, as próprias revistas poderiam se direcionar para esse público ou poderiam ter uma segmentação mais específica. A Anagrama dá um baita trabalho, tem um processo editorial interessante, mas mesmo assim ela é avaliada como B5. E ela sempre vai ter uma avaliação baixa por conta dos critérios que são utilizados na avaliação. Acho que está na hora da gente rediscutir esses critérios. E acho que é importante envolver os alunos de graduação nessas políticas de avaliação da área. Só assim conseguiremos avaliar se esses critérios são os mais adequados ou não. Eu acredito que talvez não sejam.

Infelizmente, a iniciação científica ainda é vista como processo de formação do aluno. E talvez ela devesse ser vista muito mais pelo lado profissional do que pelo aspecto de formação.

5. E ao mesmo tempo a gente percebe que até para as pessoas que pensam em seguir a área acadêmica existe uma cobrança, às vezes é exigido alguma publicação nessa parte. E talvez isso seja um tanto contraditório, talvez conflitante…

Eu acho importante ter a questão da cobrança porque você precisa ter parâmetros bem alicerçados na área. E existe muita coisa relevante sendo produzida na graduação. Não são trabalhos que para ficar apenas na biblioteca da faculdade. Nós temos avanços de discussões ali que têm de ser publicizadas.

Infelizmente, a iniciação científica ainda é vista como processo de formação do aluno. E talvez ela devesse ser vista muito mais pelo lado profissional do que pelo aspecto de formação. Eu me lembro que quando eu comecei a fazer iniciação científica, meus pais não entendiam o que eu fazia. Para eles, era como se fosse uma disciplina, uma parte da faculdade, não uma parte da vida profissional. Eles viam os meus amigos fazendo estágio e eu fazendo iniciação científica, e não entendiam. [Para eles], era como se eu estivesse ficando para trás de alguma forma. Hoje eles entendem, pois eu segui a carreira. Mas não era pra ser uma valoração diferente entre essas áreas. A iniciação científica é o estágio da área acadêmica. Então deveria ter uma mesma valoração e ser mais discutido também.

6. As mudanças na universidade brasileira, especialmente com as políticas de ação afirmativa, levam novos estudantes e também novos temas, novas inquietações que alteram de alguma forma o próprio modo de pensar da academia… 

Sem dúvidas! Vocês tem um refresco do modo de pensar da academia. E é importante que você tenha incentivos institucionais para isso, porque não adianta você só ter um aluno com vontade de estudar ou pesquisar determinado tema. Se você não tem uma política institucional de valorização de iniciação científica, isso não funciona. Você precisa ter bolsa, espaços laboratoriais, tudo isso. Você só consegue verba para isso com políticas institucionais, e com briga política, porque senão você não consegue nada disso.

7. O que mudou na produção científica dos alunos e alunas desde quando você começou a editar a Anagrama até hoje? Você percebe alguma mudança nos temas, projetos, autores e a própria contribuição para o campo? Se possível, gostaria que você fizesse uma relação da sua experiência na Anagrama com as mudanças na política científica. 

Em termos de temas e projetos, eu não sei se consigo te falar muita coisa, porque a Anagrama ainda é um universo muito pequeno, porque publica só artigos de comunicação, e recebemos muitos artigos bons que não conseguimos publicar por falta de espaço. O nosso universo é muito pequeno pra observar isso, mas uma coisa que tenho certeza, e que conseguimos ver com clareza, é que quando existe políticas de incentivo de bolsas, você tem um número maior de pesquisas sendo publicadas e, por isso, uma contribuição científica muito mais consistente. Então, eu acho que isso é uma luta pelo qual vale a pena: aumentar o número de bolsas de iniciação científica.

E uma coisa que tenho observado também é que a política da Capes e do CNPq influenciam de forma direta na iniciação científica. Eles direcionam as áreas prioritárias. Quando as Ciências Humanas não são mais consideradas uma área prioritária, nosso campo perde muito. Perde financiamento, número de bolsas. E isso é um processo complicado. Isso pode ser muito problemático no futuro porque existe uma discussão sobre o delineamento de outras áreas estratégias (que não incluem as Ciências Humanas) que pode ter um impacto muito brutal. Os alunos de graduação precisam estar informados e envolvidos porque isso é interesse deles e pode impactar no trabalho de pesquisa de forma fundamental.

8. Para você, qual a importância das pesquisas durante graduação na formação de novos acadêmicos no campo da comunicação?

Acho que ela é fundamental. Você não precisa começar sua carreira na área acadêmica na iniciação científica. Você pode começar no mestrado e em outras instâncias, mas a iniciação científica te dá uma base, você aprende a fazer pesquisa a partir dela. Então os trabalhos que vão para o mestrado são muito mais sofisticados. Ela é importante para o desenvolvimento do pesquisador e um modo de inserção social. Por isso que é importante não só o espaço para fazer pesquisa, mas o espaço para divulgação dela, porque a pesquisa é um modo de inserção no mundo.

Mesmo que o aluno decida depois não seguir a área acadêmica, mas atuar em outras instâncias, o que você aprende na iniciação científica em termos de metodologia e procedimentos teóricos e de trabalho vai te ajudar em muitas outras instâncias profissionais também. Então é um tipo de postura diante do mundo que é muito interessante para muitas áreas que vão além da área científica.

(…) como dica sobre por onde começar, seria: ouça suas inquietações sociais, ouça o que te incomoda no mundo e o que você acha que pode ajudar a explicar em termos de funcionamento de mundo.

9. O que você talvez diria para alguma pessoa que está pensando em fazer iniciação científica na graduação? Não diria dica no sentido de uma prescrição, mas o que seria importante pensar para começar? 

Eu acho que a iniciação científica é uma experiência maravilhosa para o que quer que o aluno queira fazer da sua carreira. Realmente, só como experiência a iniciação científica já vale porque ela te dá visada de mundo diferente do que as disciplinas te dão. E como dica sobre por onde começar, seria: ouça suas inquietações sociais, ouça o que te incomoda no mundo e o que você acha que pode ajudar a explicar em termos de funcionamento de mundo.

Trabalhar com um tema de pesquisa é absolutamente secundário: você vai trabalhar com uma pergunta de pesquisa. Então, qual é a pergunta que te incomoda? Se você conseguir responder isso, você já tem um pontapé. Você não precisa ter uma resposta para essa pergunta. Saber o que te incomoda já ajuda bastante a delimitar isso.

Conheça o trabalho da professora Eliza:

Currículo Lattes

E-mail: elizacasadei@yahoo.com.br

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