Museus como experiências culturais de consumo: entrevista com Giovanna Orsatti

Giovanni Rodrigues Orsatti é estudante do curso de Comunicação Social – Publicidade e Propaganda da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). No segundo ano do curso, decidiu estudar as experiências culturais e de consumo nos museus, apontando alguns insights sobre o que pretende desenvolver na sua investigação. Nessa conversa, ela comenta suas hipóteses, primeiras reflexões e desafios.


1.  Na sua pesquisa, você tem estudado como as experiências culturais em museus se materializam em objetos de consumo, como os souvenires e itens de lembrança. De onde veio a ideia de pesquisar o assunto?

Eu tive meu primeiro contato com esse tema durante uma aula no primeiro semestre e o professor mencionou isso, era uma aula sobre consumo. Em muitos casos, quando vamos a uma experiência cultural como o museu, encontramos uma loja no final [do percurso]. Eu me interessei muito pelo tema, então um dos meus trabalhos para essa disciplina foi sobre isso. Quando acabou, o professor falou que era possível começar uma iniciação científica, então eu fui atrás agora. Para mostrar esse projeto de pesquisa, foi muito pensando nesse primeiro trabalho que tinha feito, e para ampliá-lo e entender melhor por que as pessoas, quando vão ao museu, têm essa vontade de comprar alguma coisinha depois. Acho que é um tema interessante e relevante para a gente conseguir pensar como o consumo pode estar em várias esferas da nossa vida. 

Quando vamos ao museu, não estamos consumindo só a experiência cultural que está lá. A gente também consome depois um objeto que corporifica toda essa experiência que tivemos ali. Quando o professor mencionou isso, eu me interessei porque gosto muito de museu e de comprar algo depois. Então a pesquisa seria interessante também no sentido de pensar por que as pessoas compram depois do museu e o quanto essa loja pode ajudar em termos econômicos.

Quando vamos ao museu, não estamos consumindo só a experiência cultural que está lá. A gente também consome depois um objeto que corporifica toda essa experiência que tivemos ali.

2. No seu projeto, você aponta que o consumo pode ser entendido como uma mediação cultural na contemporaneidade, especialmente na construção das identidades individuais. Nesse sentido, como os museus adentram nessa nova configuração? Quais suas principais hipóteses? 

Lendo os autores, como o [Nestor García] Canclini, que fala sobre isso,  conseguimos perceber que quando vamos ao museu, também estamos consumindo alguma coisa: a experiência cultural e olhando tudo o que está lá. Então, acho que você vai, consome a experiência cultural e depois consome de novo um produto. A hipótese é que esse produto vai tentar traduzir tudo o que a pessoa viveu ali dentro, o que ela achou importante. Muito provavelmente ela vai comprar um objeto que ela mesmo tenha gostado, que mais faça sentido para ela e para sua identidade e personalidade. Então a tradução de toda a experiência em um único objeto é a maior hipótese da pesquisa. 

Outra é também a questão de ter, de certa forma, um ritual de ir até o museu e tentar traduzir aquela experiência na compra. Essas são as principais hipóteses.

3. Podemos afirmar que no Brasil não há políticas públicas (ou a colocação em prática delas) muito consistentes sobre preservação e conservação dos nossos museus, vide o que aconteceu com o Museu Nacional, que acabou escancarando esse problema. Um dos objetivos do seu projeto é observar como as lojas dos museus podem ajudar na manutenção do espaço e contribuir para o marketing turístico. Você acredita que essas novas formas de consumo culturais pelos objetos podem ajudar a repensar a situação dos museus? 

Quando eu fiz o trabalho para a disciplina e pesquisando sobre o assunto, vi que muitos museus do mundo tentam diversificar a renda, as fontes onde estão vindo os recursos para manter o museu. Eu vi que em muitos lugares a loja ou serviços como café ajudam os museus nesse sentido. Agora, para aprofundar um pouco na pesquisa de iniciação científica, eu peguei uma disciplina optativa sobre Museus em Turismo, e tivemos uma aula que falava sobre isso: é muito difícil um museu conseguir sobreviver com apenas uma única fonte de recursos, então eles tentam diversificar o máximo possível, seja com o repasse de governos, patrocinadores empresariais, pelos cafés que colocam nas suas dependências, e a loja também ajuda. 

Giovanna Orsatti (ECA/USP)

Inclusive, eu vi um vídeo para essa disciplina que mostrava que o museu de Londres não só vendia os produtos na sua própria loja, mas também em supermercados; vinha o nome do museu e tudo mais.

Então essas lojas ajudam a tentar diversificar os recursos dos museus e de onde eles conseguem adquirir renda. Mas, quanto à pergunta sobre se as novas formas de consumo podem ajudar a repensar a situação dos museus, acho que é uma oportunidade das pessoas irem ao museu e comprarem alguma coisa, mostrarem para as outras pessoas e amigos, e tentar dar mais valor a essas instituições, valorizar o nosso patrimônio. 

4. Quais os desafios que você tem enfrentado na pesquisa atualmente?

Agora é muito difícil achar informações sobre as lojas de museus na internet, como tamanho de loja, fotos da loja, ver o que a loja oferece em termos de produto. E por conta da a pandemia, agora não é possível ir, conversar com alguém e fazer o levantamento de museus que tem lojas maiores ou menores e que tipo de produtos eles oferecem. Acho que com a pandemia fica mais difícil tentar mapear. 

Geralmente sites de museu não vão focar tanto na loja, mas mais no acervo e no propósito dele, como chegar, esse tipo de informações. 

Fale com a Giovanna:

E-mail: giovanna.orsatti@usp.br

Foto de destaque: Julio Nery (Pexels)

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