Transformando dúvidas e imaginação em pesquisa: entrevista com Luís Mauro Sá Martino

Luís Mauro Sá Martino é professor do Mestrado em Comunicação da Faculdade Cásper Líbero. Autor de diversos livros na área de comunicação, dentre eles “Mídia, Religião e Sociedade” (Paulus, 2016), “Teoria das Mídias Digitais” (Vozes, 2014) e o mais recente “Métodos de pesquisa em comunicação” (Vozes, 2018). Por e-mail, ele conversa com a gente sobre os aspectos inicias do desenvolvimento de uma pesquisa, as etapas anteriores à escrita do projeto e a importância da teoria como algo para viver

1.  Umas das principais coisas para o desenvolvimento de uma pesquisa, além de escolher o tema, é a formulação de uma boa pergunta. Podemos imaginar que isso não é um processo tão fácil, ainda que tenhamos em mente o que queremos pesquisar. Nesse sentido, como podemos transformar nossas inquietações em perguntas?

Penso que uma primeira maneira de fazer isso é perguntar “Por que esse tema me inquieta? O que me atrai?”. Em geral, aquilo que me interessa pode atrair outras pessoas também. Outra estratégia é pensar se, de verdade, o objeto me provoca a ponto de fazer um estudo a respeito. Digo isso porque gostar de um tema nem sempre é suficiente: às vezes sou fã de um assunto, gostaria de escrever a respeito, mas não há propriamente algo que me desafia a estudar – algo que eu não sei e gostaria de saber. Boas pesquisas nascem de dúvidas e de imaginação.

2. Como professor e pesquisador de epistemologia da Comunicação, talvez você já tenha lidado com situações em que a discussão epistemológica fosse necessária nas aulas de graduação. Nesse sentido, no decorrer da sua trajetória, como você tem lidado com isso considerando os limites de um curso de graduação (tempo, carga de leitura, etc.) e tomando o cuidado para não simplificar as questões que o debate demanda? 

Discussões epistemológicas são parte fundamental da reflexão sobre a Teoria da Comunicação – por exemplo, até que ponto elas explicam a realidade ao nosso redor. Penso que o desafio é como apresentar esse tipo de discussão, relacionando a epistemologia com as práticas e vivências de alunas e alunos. Problemas epistemológicos estão presentes no cotidiano, por exemplo, quando precisamos avaliar se o que sabemos está correto (“Posso confiar nesta mensagem?” ou “Como sei se este postagem é verdadeira?”). A partir daí podemos construir pontes para questões conceituais e teóricas.

Acredito que teoria não é uma coisa que se sabe, é algo que se vive.

3. Logo quando entramos em algum curso de comunicação, é comum que nossa preocupação com as teorias – às vezes entendidas muito mais como meras especulações – seja deixada de lado e nos concentremos nas atividades mais práticas. Como você avalia isso e quais suas estratégias para desfazer certas concepções prontas e instigar o interesse teórico?

Acredito que teoria não é uma coisa que se sabe, é algo que se vive. Mais do que um conjunto abstrato de conceitos ou ideias, são jeitos de ver melhor o que fazemos para, a partir daí, provocar reflexões críticas a respeito das práticas – não só as questões profissionais, mas também do cotidiano. Quando aprendemos uma teoria, podemos ver o mundo a partir dela – por exemplo, entender o que significa ser fã de uma banda ou de uma série de TV, ou o que muda em nossa vida afetiva quando as conversas com o crush são mediada por redes digitais e aplicativos. Digo, em uma brincadeira séria, que a teoria pode nos ajudar a entender melhor até a organização dos produtos em uma padaria.

Teorias, em linhas bastante gerais, são grupos de conceitos que nos ajudam a olhar a realidade para além das aparências, do imediato. Mais do que palavras, conceitos permitem criar conexões entre os eventos, interpretar os acontecimentos, ligar os fatos e, a partir disso, encontrar novos sentidos na realidade. Usamos conceitos o tempo todo – quando digo que alguém é “incrível”, estou conceituando essa pessoa. A diferença de um conceito desses para uma teoria acadêmica é o rigor em sua elaboração (por exemplo, definir o que inclui, ou exclui, uma pessoa da categoria “incrível”). Teoria e prática são dois componentes de algo maior, a ação. Por isso, não vejo muito como separar uma da outra.

4. Ainda considerando sua trajetória enquanto professor, como você avalia a participação dos estudantes de graduação no campo da pesquisa? Antes disso, o que é preciso pensar para que novos estudantes se interessem por essa área?

Acho que vale apresentar a pesquisa como uma possibilidade de atividade e, porque não, de carreira. No curso de Jornalismo, por exemplo, terei aulas de Telejornalismo: mesmo que eu não trabalhe com TV, é fundamental ter esse conhecimento. O mesmo vale para a pesquisa, entendida como parte da formação. Mas, mais do que isso, pesquisa é uma maneira da gente estudar o que gosta, aprender mais sobre o que nos interessa e, no processo, saber um pouco mais sobre nós mesmos. Pesquisa dialoga com a vida, e dessa trama surgem temas que falam conosco – sejam, digamos, uma questão da Publicidade, a atuação do Relações Públicas ou a trajetória de minha cantora pop preferida.

Mais sobre professor Luís Mauro:

Currículo Lattes

Imagem: Luís Mauro Sá Martino (Arquivo pessoal)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s