Memória e história dos terreiros em Juazeiro-BA: entrevista com Paloma Silva e Marcus Gomes

Nesta entrevista, conversamos com os estudantes Paloma Cristina da Silva Souza e Marcus Gomes, da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), sobre a pesquisa envolvendo as memórias e a história do Terreiro Ylê Asé Ayrá Onydancor, localizado em Juazeiro-BA. Os pesquisadores apontam durante o papo novas questões sobre a pesquisa envolvendo as comunidades negras, a importância de discussões de qualidade sobre as religiões de matriz africana no espaço acadêmico e a necessidade de documentação histórica como forma de combater o racismo e a intolerância religiosa.

1. A pesquisa de vocês tem o intuito de discutir, entre outras questões, a importância da oralidade na construção de memórias e da história do povo negro a partir do Terreiro Ylê Asé Ayrá Onydancor, de Juazeiro (BA). De que forma a investigação tensiona a visão hegemônica que se tem sobre as religiões de matriz afro na academia e na sociedade?  

Paloma: As contribuições de pesquisas como a nossa, além de abrirem discussões sobre a queda de tabus e estereótipos que os adeptos das religiões de matriz africana sofrem, abrem também espaço para que essas questões sejam discutidas no campo científico, político e jurídico. Então, discutir essas questões no campo acadêmico, com o desenvolvimento de pesquisas como a nossa e produtos desses trabalhos, ajuda a construir um material disseminador de conhecimento, podendo assim abrir caminhos para que esse assuntos sejam discutidos em outros espaços, ajudando a quebrar esse ciclo de intolerância religiosa. Grande parte das pessoas que julgam e discriminam as religiões afro têm pouco conhecimento sobre essas religiões, por mais que 54% de toda a população do Brasil se autodeclara negra, de acordo com o IBGE. 

Então, levantar questões sobre a importância desses terreiros para a cultura e para esse processo de identificação da sociedade é um dos pontos que pesquisas como a nossa tentam construir e levantar. Esse é o principal papel da nossa pesquisa: tecer uma história que vincule a organização da cidade e a constituição de seus bairros e espaços de circulação cultural com as religiões de matriz afro, como é o caso do nosso terreiro, que se integrou aos moradores do bairro onde está localizado por meio de projetos e ações sociais, já tendo sido inclusive usado como posto de saúde em campanhas de vacinação. Trazer essas questões faz com que a sociedade e o poder público revejam suas relações com esses espaços e possam, assim, criar políticas públicas que os favoreçam. 

Marcus: Para o artigo [do Intercom], foi preciso pesquisar a chegada dos negros aqui em Juazeiro-BA, a questão histórica deles na região. Pesquisamos como eles chegaram aqui, com quem e a sua condição de pessoa escravizada. Na pesquisa, foi possível conhecer as riquezas culturais e, principalmente, o Candomblé, que é uma criação brasileira. Os negros que chegaram aqui, de várias etnias e nacionalidades diferentes, se uniram e acabaram criando o Candomblé. Uma das coisas que ajudam muito nessa discussão são as entrevistas que fizemos com os membros, vizinhos do terreiro e amigos para entender um pouco da dinâmica da fé da religião de matriz africana. Sabemos que muitos dizem que a religião é “isso, é aquilo, é demoníaca”. Nós ouvimos da própria boca dos membros e dos adeptos do terreiro o que é a fé deles, o que eles consideram, qual é a filosofia. E no livro, quando tiver publicado, vocês vão ver os relatos dos membros, dos adeptos, dos filhos do fundador, para entender o que é a religião de matriz africana. Na visão hegemônica, é uma, e eles vão dizer “na verdade não é isso, é outra coisa”. 

Com a publicação do livro-reportagem, vai ajudar muito a discussão sobre o que é a religião de matriz africana, como eles [adeptos] se sentem ao sofrer racismo religioso. Isso tudo vai estar bem esclarecido. Vão dizer no que acreditam, nos orixás deles, o que cada orixá significa, eles vão contar que não tem nada a ver com o mal ou feitiçaria, mas uma crença – segundo a visão deles – que é benefício para todos. 

Como Paloma falou, a questão do terreiro servir como base de vacinação, de ação social, essa é a importância da pesquisa sobre as religiões de matriz africana aqui em Juazeiro (BA). 

Festa do Caboclo boiadeiro no terreiro Ilé Asé Ayrá Onydancor, 2017. Créditos: Márcia Guena. Divulgação.

2. No artigo apresentado para o Intercom 2020, vocês relatam como os estudos envolvendo a cultura oral sofrem uma certa resistência no circuito acadêmico, sobretudo porque fogem à hegemonia da escrita. Como o livro-reportagem elaborado por vocês ao final da pesquisa busca refletir sobre isso? De que forma os saberes do terreiro são apresentados como uma outra forma de compreender o mundo a partir desses registros? 

Paloma: Nossa pesquisa busca refletir como o uso da cultura oral é uma forma de documentação histórica, principalmente quando se trata de tecer uma história sobre as comunidades tradicionais, onde a gente sabe que a construção histórica dessas famílias, principalmente as indígenas e as famílias negras, passam e são envolvidas por conflitos conflitos políticos e jurídicos. É quase impossível encontrar registros históricos públicos físicos sobre essas comunidades, principalmente sobre a comunidade negra. 

Consideramos que qualquer pessoa é um agente histórico que pode ajudar a compreender todas as experiências individuais históricas. Então, foi através da memória dos nossos personagens que foi possível recuperar parte da história do terreiro da região. Por mais que o bairro do Quidé, onde está localizado o terreiro, seja considerado o de maior número de negros e que já teve o maior número de terreiros de Candomblé, uma comunidade com tamanha importância engloba em sua construção histórica três importantes culturas: os vaqueiros, que são personalidades do nordeste brasileiro; os indígenas, aqui representados pelos índios Tuxá; e os povos de terreiros, que são em sua maioria negros. Então, foi através da memória desses personagens que foi possível retratar parte dessa história. 

E, ao contrário de outras religiões que transmitem suas ideias a partir de tradições escritas, como é o caso da bíblia, as religiões de terreiro transmitem sua religiosidade através da oralidade. E isso não quer dizer que não haja escritos sagrados, mas sim que eles não seguem obrigatoriamente algum livro. Essas religiões afros mostram como a transmissão oral é o que interliga um indivíduo à comunidade. Ela é mantida através da participação de cada fiel, que se torna um único responsável por reconhecer e repassar os ensinamentos religiosos. Então não há um livro sagrado com esses ensinamentos, mas sim o conhecimento de cada um que é compartilhado e experienciado através dos seus rituais sagrados. Os saberes do terreiro são apresentados como uma  forma oral de repassar suas tradições, sendo que eles utilizam a palavra falada como principal veículo de manutenção dessa tradição de justificação e do reconhecimento contínuo desse processo de construção das suas identidades religiosas. 

Marcus: Como Paloma falou sobre a questão oral, se você lembrar muito bem, em Gênese, na bíblia, até um certo ponto da história bíblica era oral e foi escrita posteriormente, possivelmente centenas de anos depois. Então, muitos consideram como verdade. A academia não tem um preconceito de discutir como é que a fé cristã moldou o mundo, como influenciou o mundo e como as sociedades ocidentais têm valores culturais judaico-cristãos. Essa pesquisa buscou, principalmente no início, como falei, descobrir como é que os negros chegaram em Juazeiro (BA), e saber que os livros não tinham os negros como os atores principais da construção do Brasil, de Juazeiro, mas sim como povos subalternos. Quando fizemos as investigações nos livros, quase não se falava nada dos negros por aqui. Se dava até mais voz à história indígena por causa daquela ligação entre catequese dos índios e depois o fim da obrigatoriedade de escravizar índios e, no lugar deles, os negros. 

Ficou documentada uma parte da história dos índios, mas da história dos negros, quase nenhuma. Quando aparecia – que era raramente –, aparecia como bandidos, ou que faziam arruaça. Com essas histórias do terreiro, nós vamos entender e conhecer como é que os negros se comportaram aqui em Juazeiro, como é que se uniram para resistir e viver até hoje. E com a escrita do livro-reportagem, quando a academia conhecer, ela vai ter arcabouços teóricos e conhecimentos para saber discutir as religiões de matriz africana a partir dos próprios membros, dos fundadores, e não a partir de falas de terceiros estereotipadas, preconceituosas. O livro vai trazer bem esse confronto entre a história tradicional judaico-cristã e a história dos negros a partir do terreiro de matriz africana. Vai ser uma contribuição para a reflexão e para que no futuro se discuta a religião de matriz africana de maneira um pouco mais cuidadosa, colocando o lado dos negros e dos fundadores do terreiro. Assim, as pessoas compreenderão como os membros da religião se enxergam no mundo, o que eles querem passar para o mundo e o que eles querem que o mundo entenda quem eles são.

Consideramos que qualquer pessoa é um agente histórico que pode ajudar a compreender todas as experiências individuais históricas (Paloma)

3. No mesmo trabalho, vocês apontam brevemente a importância de registrar as emoções e os gestos das personagens em qualquer livro-reportagem. Partindo disso, o que os afetos e a compreensão do sensível a partir das experiências no terreiro trazem de contribuição ao debate acadêmico?

Paloma: Registrar não só os afetos, mas os ritos e a organização do terreiro ajuda a contribuir e a desmistificar grande parte dos preconceitos que a sociedade tem com as religiões de terreiro. Então, mostrar seu funcionamento, a simbologia dos seus ritos, o porquê das suas tradições, desperta para a academia a curiosidade de conhecer o funcionamento dessas comunidades. Então, ajuda, sim, para que eles tenham interesse em discutir essas questões e também contribui para a diminuição dos casos de intolerância religiosa. 

Isso bate bem com o que Marcus falou: como funciona, a importância deles mesmos falarem sobre o funcionamento dessas comunidades. 

Festa do Caboclo boiadeiro no terreiro Ilé Asé Ayrá Onydancor, 2017. Créditos: Márcia Guena. Divulgação.

4. A pandemia do coronavírus fez com que uma parte das interações fossem realizadas à distância, mediadas por computador. O que isso trouxe de diferente para os resultados da pesquisa, levando-se em conta que o espaço do terreiro é considerado sagrado? 

Paloma: Acredito que não alterou o resultado da pesquisa, pois a maioria das entrevistas foi realizada nas imediações do terreiro. Quando ocorreu o isolamento social, a gente já tinha realizado doze das entrevistas, então apenas uma foi realizada pelo computador. Discutimos no artigo, mas foi um pedaço bem pequeno, porque foi um questionamento que surgiu na construção do trabalho, mas que logo a gente concluiu que não foi um trabalho netnográfico porque apenas uma das entrevistas foi realizada por computador, então não alterou o resultado da pesquisa. 

Marcus: Essa questão do terreiro, entrevistar as pessoas e entender como essa questão da religião de matriz africana para a pessoa, não ficou prejudicada, como Paloma falou, mas a única coisa que realmente não deu para perceber era a reação da pessoa emocionalmente quando ela falava sobre a religião. Porque é diferente quando você está pessoalmente e vê o gesto da pessoa, como exemplo na última entrevista que foi pessoalmente: quando nós fizemos uma pergunta que incomoda, a pessoa tem um certo tipo de reação, seja o gesto da mão, do pé, aquele incômodo. 

Mas, como Paloma falou, não prejudicou, não. Teria prejudicado se fosse mais entrevistas mediada pelo computador, porque, como falei, é necessário você observar todo o cenário, ver como as pessoas reagem na hora de uma pergunta que é um pouco mais incômoda, seja com os gestos da mão, com as pernas e com o pé. Mas, no todo, não prejudicou, foi muito boa. 

5. Quais são os próximos passos da pesquisa? O que vocês gostariam de avançar em termos de reflexão sobre o assunto e tema? 

Paloma: Nosso próximo passo da pesquisa é construir um mapeamento de novos terreiros do bairro do Quidé. A gente pesquisou e adentrou na história do terreiro Onydancor e queremos abranger para outros terreiros da cidade e construir, a partir desse mapeamento, uma cartografia. Eu vou construir o mapeamento e Marcus a cartografia. 

Marcus: Vai ser um processo de geoprocessamento. Como Paloma falou, ela e a [outra] colega vão pesquisar os usos dos terreiros de matriz africana no bairro do Quidé e trazer as informações, as histórias e tudo o que envolve esses terreiros. A partir daí, criaremos um aplicativo onde vamos colocar informações sobre os terreiros: sua história, suas curiosidades, tudo o que ajuda a divulgar a cultura dos terreiros. A partir do geoprocessamento, vou alimentar esse aplicativo que vai estar disponível nas lojas de aplicativos e a pessoa, de qualquer parte do mundo, poderá acessar o aplicativo e pesquisar curiosidades de cada terreiro: as características, a ficha de cada terreiro e comparar as diferenças entre um e outro. Mas essa pesquisa só vai finalizar em 2022. 

Sobre os pesquisadores:

Paloma Cristina da Silva Souza. Arquivo pessoal.

Paloma Cristina da Silva Souza é estudante do 6° período do curso Jornalismo em Multimeios na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), campus III, Juazeiro-BA. Atualmente é bolsista do Programa de Políticas Afirmativas, no projeto Imagens e histórias de religião de matriz africana do bairro do Quidé, Juazeiro-BA, fazendo parte do subprojeto Festa do Caboclo Boiadeiro Zeca da Varginha: Imagens e vozes híbridas de várias culturas. Faz parte da pesquisa desde outubro de 2019. Lattes | E-mail

Marcus Vinicius Gomes de Jesus é estudante do curso de Jornalismo em Multimeios na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em Juazeiro-BA. Atualmente, faz parte do projeto Imagens e histórias do Terreiro Ilê Asé Ayrá Onydancor. Entre outras pesquisas, estudou o discurso jornalístico sobre as violências vivenciadas por religiões de matriz africana. Lattes

Créditos imagem: Márcia Guena, 2017

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